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Medicamentos e idosos: fique de olhos abertos!

on 08 Dezembro 2015

Sabemos que, com o passar da idade, ocorrem modificações importantes no corpo. A quantidade de líquido extracelular diminui, enquanto a de gordura aumenta consideravelmente.

As funções de diversos órgãos também se alteram. A acidez do estômago torna-se menor. O fígado fica mais lento na realização de suas funções, além disso, o uso de diversas medicações ao mesmo tempo dificulta seu correto funcionamento. 

No caso dos rins, por exemplo, há uma perda anual de 1% em suas capacidades após os 50 anos. Essas alterações, que começam na absorção, passam pela metabolização e distribuição, terminando na eliminação, influenciam na forma como os mais velhos respondem a um determinado medicamento.

Como a maioria foi testada predominantemente em adultos, alguns cuidados devem ser tomados quando se decide começar o tratamento em pacientes idosos. E quais as consequências de negligenciarmos essa diferença própria dos mais velhos? Quedas, esquecimento, hemorragias digestivas e visitas desnecessárias à emergência. 

Diazepam

Começamos com um exemplo de medicamento comumente prescrito para idosos, em especial aqueles que dependem do SUS, o diazepam. Ele possui a característica de se acumular na gordura e, como vimos, um idoso apresenta muito mais gordura corporal do que um adulto. 

Com isso, o tempo que uma dose de diazepam leva para ser totalmente eliminada pode chegar a longas 200 horas (mais de oito dias). Essa característica lipofílica também faz que seu uso frequente cause um efeito acumulativo, ocasionando diversas reações adversas, como tontura, piora na memória e fraqueza muscular, que pode resultar em catastróficas quedas. 

O mesmo acontece com diversos outros medicamentos antibióticos, anti-inflamatórios, antidiabéticos e aqueles que atuam no sistema nervosos: podem causar sérios problemas de saúde.

Preocupadas com isso, sociedades de geriatria pelo mundo periodicamente publicam listas de medicamentos cuja prescrição deve ser evitada em idosos. A relação mais conhecida é a da Sociedade Americana de Geriatria, chamada de Critérios de Beer’s - sua última atualização foi em 2012.

Os medicamentos que estão nessa lista devem ser evitados ao máximo, pois há na maioria das vezes opções mais seguras. No entanto, cabe ressaltar que, em alguns casos, o médico pode acabar tendo que optar pelo uso temporário de um deles.

Seguir bem essas listas ajuda tanto o médico quanto o paciente a evitar um fenômeno comum, que é usar um medicamento para “curar” os efeitos adversos que estão sendo causados por outro.

O problema é que, muitas vezes, o paciente faz uso de alguma dessas medicações há vários anos e acha que não vale mais a pena tentar retirá-la ou fazer uma mudança. Porém, devem-se levar em consideração as modificações que ocorrem com o passar da idade e os riscos que aquela medicação possa trazer. 

Entenda que não é à toa que o médico tenta fazer essa troca. Reduzir o risco de quedas, diminuir a sonolência, melhorar a memória e o raciocínio, evitar quedas bruscas na pressão arterial são razões importantes que justificam pelo menos que se tentem essas mudanças!

Receitas médicas

Outro problema frequente no uso de medicações por pacientes idosos é a quantidade de receitas de médicos diferentes, muitas vezes de datas bem distantes. Recomenda-se que seja feita uma lista atualizada das medicações e que ela sempre esteja com o paciente quando de consultas ou idas ao hospital. Eu costumo também deixar uma cópia com algum dos filhos.

Fique esperto e converse com seu médico sobre uma possível troca! Sabemos que, às vezes, não se tem à disposição medicamentos menos prejudiciais e o médico necessita tomar alguma conduta - ou seja, não condene quem quer te ajudar, apenas pergunte!

Tenho a opinião de que o Ministério da Saúde e secretarias estaduais e municipais deveriam ficar atentos a essa questão, pois diversas medicações que devem ser evitadas ao máximo nos idosos estão disponíveis na Farmácia Popular.

Um desses absurdos é o fato de haver aproximadamente 3 milhões de idosos com depressão no Brasil e a principal medicação que o SUS disponibiliza, sem encaminhamentos burocráticos cansativos e desarticulados na maioria das vezes, é a amitriptilina - que, nos idosos, pode ocasionar sérios efeitos adversos (piora cognitiva, alteração no ritmo cardíaco, retenção urinária e aumento no risco de quedas).

Viu só como é complicado prescrever adequadamente uma medicação para um idoso? Se com médico já é uma questão delicada e que pode ocasionar problemas, imagine sem ele. Pense nas atrocidades que a automedicação pode causar na terceira idade. 

Para conferir a lista completa dos Critérios de Beer’s, acesse www.leandrominozzo.com.br\blog.

Dr. Leandro Minozzo - CRM 32053
Mestre em Educação | Clínico Geral - Especialização em
Geriatria PUCRS | Pós-graduado em Nutrologia pela ABRAN